Brasileiro, apaixonado por futebol, morando em Londres. Durante a semana, tinha visto um campo perto de onde estava hospedado. Chegou o domingo, colocou as chuteiras e partiu confiante, pensando que iria arrasar. Não foi, porém, o que aconteceu. “Joguei muito mal, chutei o chão, não acertava a bola”, diz o ator Nando Bolognesi, hoje com 47 anos, ao lembrar de um dos episódios vividos 26 anos atrás que indicavam os primeiros sintomas da esclerose múltipla, uma doença degenerativa, progressiva, incurável e com potencial incapacitante.

Os versos da música Maria, Maria, na voz de Elis Regina, viraram seu mantra quando estava se sentindo pra baixo. A família e 11 anos de terapia foram os seus apoios. Ainda na viagem à Europa, antes de tomar conhecimento da esclerose múltipla, ele tinha tomado a decisão de que queria ser ator. Entrou para a Escola de Arte Dramática da USP. Participou do elenco de dois filmes e de várias peças. No último ano do curso, descobriu o personagem da sua vida – o palhaço. Fez parte dos Doutores de Alegria, do elenco de palhaços improvisadores Jogando no Quintal e criou o projeto Fantásticos Frenéticos (palhaços em hospitais psiquiátricos).

Bolognesi passou por tratamentos experimentais, como um autotransplante de medula, que considera bem-sucedido. “O ritmo da piora teria sido em velocidade maior se não fosse o transplante”, acredita. Usa bengalas canadenses, tem dificuldade de locomoção, teve de reinventar sua vida, mas faz tudo para preservar sua autonomia. Ele dirige seu automóvel adaptado, é casado, tem um filho adotivo e trabalha.

Hoje ele conta sua história de superação no espetáculo de teatro “Se fosse fácil, não teria graça”, em cartaz no Tuca Arena, em São Paulo, de 01 a 30 de julho – sextas e sábados, às 21 h e domingos, às 18h (www.teatrotuca.com.br).

 

Em cartaz há quatro anos, o espetáculo já foi assistido por mais de 20 mil pessoas

Com humor e leveza

Durante cerca de duas horas, que passam voando, ele narra episódios vividos em razão da doença, que, ao mesmo tempo fazem rir e comovem. Com bom humor e leveza, o ator fala sobre como ultrapassou limites e dificuldades, sobre a vulnerabilidade da vida e sobre como é bom estar vivo. Há quatro anos em cartaz já foi visto por quase 20 mil pessoas.

“No fim, sempre as pessoas vêm falar comigo e dizem como foi importante para elas conhecer minha história. Por isso, é que eu gosto tanto de fazer essa apresentação. A doença e os tratamentos me colocaram no lugar do próximo, de quem é ajudado. O teatro me colocou de novo no lugar do protagonista. E por isso começo o espetáculo agradecendo a plateia”, conclui Bolognesi.

 

 

O que é

Segundo a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM), essa é uma doença neurológica, crônica e autoimune – ou seja, as células de defesa do organismo atacam o próprio sistema nervoso central, provocando lesões cerebrais e medulares. Os pacientes são geralmente jovens, a maioria mulheres de 20 a 40 anos. A ABEM calcula que 35 mil brasileiros tenham a esclerose múltipla, que não tem cura e pode se manifestar por diversos sintomas como fadiga intensa, depressão, fraqueza muscular, alteração do equilíbrio da coordenação motora, dores articulares e disfunção intestinal e da bexiga.

 O que não é

A esclerose múltipla não é uma doença mental, não é contagiosa, não é suscetível de prevenção. O tratamento visa atenuar os efeitos e desacelerar a evolução.