Aos 22 anos de idade, Marcelo Morgado Ramos foi baleado durante um assalto e ficou tetraplégico. Desde então, ele tem de usar ventilação mecânica e precisa de cuidados técnicos de enfermagem diversas vezes ao dia. No entanto, isso não o impede de levar uma vida bastante ativa. Da sua casa, ele comanda por telefone e pelo computador a área comercial de sua gráfica, que fica em São Caetano do Sul, cidade vizinha a São Paulo, onde ele também mora. Graças à evolução da tecnologia ele pode frequentar shoppings, cinemas, restaurantes e até shows.

Em 1995, seu pai Horácio viajou para Portugal, mas o filho não quis acompanhá-lo por causa da carreira profissional. Ele preferiu deixar a viagem para 1997, mas aí aconteceu o acidente e, desde então, sempre ficou pensando se conseguiria realizar esse sonho. “Queria muito conhecer Portugal, principalmente a aldeia em que meu pai nasceu chamada Batalha, que fica no Distrito de Leiria”, diz.

No início deste ano, Marcelo resolveu compartilhar seu desejo com o diretor da Home Doctor, Dr. Cláudio Flauzino. “Ele me deu o maior respaldo. A empresa me ajudou em tudo para eu realizar meu sonho com toda a segurança”, afirma Marcelo. A partir daí, viabilizar a viagem de Marcelo se tornou um desafio coletivo de dezenas de profissionais da Home Doctor e fornecedores, que tiveram de vencer obstáculos para chegar a um conjunto de soluções que garantisse a segurança e o bem-estar do paciente do embarque até seu retorno ao Brasil.

“Quando tivemos a autorização clínica de que ele poderia viajar, embarcamos no projeto junto com ele. Passamos a sonhar juntos. Foi um desafio muito motivador para todos nós. Tivemos até de enviar os manuais dos equipamentos para a companhia aérea e cuidar de todos os detalhes para não haver nenhuma restrição na hora do embarque”, afirma Rosângela Oliveira, gerente de equipamentos e logística. Segundo a gerente de internação domiciliar da Unidade São Paulo, Cátia Paiva, a viagem foi possível porque, apesar de complexo, Marcelo tem um quadro clínico estável e também porque a tecnologia evoluiu a ponto de permitir uma iniciativa como essa.

No dia 12 de junho, Marcelo, acompanhado de seu tio Duarte e de uma auxiliar de enfermagem, embarcou para Portugal, onde passou 15 dias. Do embarque ao retorno, a equipe da Home Doctor monitorava todo o andamento. “Eu falava com eles por WhatsApp e transmitia as informações para os demais envolvidos. Foi muita emoção quando soubemos que haviam chegado e que tudo correu muito bem”, diz Rosângela.

Nos mínimos detalhes

A viagem começou a ser planejada no início deste ano e envolveu uma força-tarefa de diversos profissionais, dentro e fora da Home Doctor. A primeira providência, informa Catia, foi obter a concordância da operadora de saúde, que não se opôs em razão da estabilidade clínica de Marcelo e do planejamento cuidadoso feito com a ajuda da Home Doctor. “Em acordo com a operadora, Marcelo recebeu alta antes do embarque e foi readmitido automaticamente assim que chegou de volta a São Paulo. É importante dizer que todos os custos dos preparativos, equipamentos e materiais ficaram por conta do paciente”, diz Catia.

Com relação a equipamentos, a equipe técnica da Home Doctor e fornecedores analisaram cada detalhe, considerando todos os cenários. Foi preciso pensar em diferentes situações que poderiam ocorrer e nos cuidados durante o voo, hospedagem e locomoções para passeios. Garantir a ventilação mecânica durante todos esses momentos era um dos principais desafios. Por segurança, Marcelo levou dois ventiladores e uma bateria extra. Além disso, a equipe da Home Doctor batalhou para convencer a companhia aérea a autorizar o uso de um cabo ligado à aeronave para funcionamento do ventilador durante o voo.

Como só obteve essa autorização muito próximo ao embarque, a equipe já tinha uma solução pronta caso fosse necessário trocar a bateria do equipamento durante o voo: um encaixe plástico para fixá-la ao equipamento sem necessidade de parafusos e uso de chave de fenda, que não são permitidos aos passageiros por regras de segurança da companhia aérea. Outro detalhe que não passou despercebido foi providenciar equipamentos bivolt para que pudessem ser carregados em Portugal, onde a voltagem é 220.

“Preparamos também os kits com materiais para aspiração e medicamentos que ele usa na rotina e treinamos os acompanhantes quanto ao uso e armazenamento. E firmamos parceria em Portugal com as empresas de equipamentos médicos Medtronic e Vivisol para suporte técnico em caso de necessidade”, lembra Catia.

Castelos, mosteiros, futebol e sardinha

Com todos esses preparativos, Marcelo pôde curtir sua primeira vez em Portugal, num roteiro que incluiu monumentos históricos, castelos, igrejas, mosteiros, um cassino e um dos maiores aquários da Europa, em Lisboa, uma visita ao estádio do Benfica a caminho de Leiria, passeios em belas praias na cidade do Porto, onde também experimentou as famosas sardinhas portuguesas assadas na rua por churrasqueiros, entre outras delícias típicas.

Junto com seu tio, Marcelo pôde registrar cada um desses momentos inesquecíveis em mais de 800 fotos, algumas delas compartilhadas em sua página no Facebook. Outras enviadas para o pai, que preferiu ficar no Brasil desta vez, pelo Whatsapp.

Os viajantes só chegaram a Batalha na segunda semana. “Eu já estava ansioso. Foi uma emoção incrível chegar no lugar onde meu pai nasceu. A casa não existe mais, mas estive na rua em que ela ficava, chamada Beco dos Simões. Foi uma viagem maravilhosa. Fizemos até um bate-volta à Espanha. Sou grato à equipe da Home Doctor por ajudar a realizar meu sonho.”