Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é considerado a principal causa de morte evitável no mundo. Bronquite, enfisema pulmonar, doenças cardiovasculares, como pressão alta, infarto e AVC, diversos tipos de câncer, impotência sexual, úlceras gástricas, alterações visuais e na memória, num total de mais de 50 doenças, estão associadas ao cigarro.

“O hábito de fumar é responsável por nove a cada 10 casos de câncer de pulmão e 30% das mortes decorrentes de outros tipos de câncer (boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas, rim, bexiga e colo de útero). Por isso, é um hábito que deve ser evitado”, alerta o oncologista Fernando Moura, do Hospital Israelita Albert Einstein, que participou das atividades do Dia Nacional de Combate ao Fumo, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Segundo ele, as pessoas costumam achar que é apenas a fumaça que pode desencadear doenças, mas não é. “A fumaça não chega aos rins, por exemplo, mas as demais substâncias perigosas são filtradas junto com a urina. O cigarro é composto por mais de 400 substâncias químicas, entre elas mais de 50 podem causar câncer. É uma droga superconcentrada, que causa dependência química e física”, destaca dr. Moura.

Ele alerta que não existem níveis seguros de exposição a essa droga, portanto fumantes ocasionais, que fumam apenas nos fins de semana quando estão bebendo com os amigos, e até os chamados fumantes passivos, que convivem com fumantes rotineiramente, correm sim risco de criar dependência e de desenvolver doenças. “É claro que nem todos os que fumam vão ficar doentes, pois também interferem questões genéticas, mas os riscos são grandes para homens e mulheres em todas as idades”, afirma o oncologista. Mas mulheres jovens que usam anticoncepcional têm o risco aumentado de ter trombose, derrame e infarto.

O médico explica que os riscos à saúde, inclusive de causar câncer, também são elevados para os adeptos do narguilé, conhecido como cachimbo d’água, shisha ou hookah. Trata-se de um dispositivo para fumar no qual o tabaco é aquecido, e a fumaça gerada passa por um filtro de água antes de ser aspirada por meio de uma mangueira. Segundo a OMS, uma sessão de narguilé de 20 a 80 minutos corresponde à exposição a todos os componentes tóxicos presentes na fumaça de 100 cigarros. Há ainda o risco de contrair doenças infectocontagiosas, como hepatite C, herpes e tuberculose.

 

Sempre é tempo de parar

Não é porque alguém já é fumante há anos que tudo está perdido. Sempre é tempo de abandonar o cigarro para ter uma saúde melhor. Segundo informações do INCA, se alguém parar de fumar agora:

  • Em 20 minutos, a pressão sanguínea e a pulsação voltam ao normal;
  • Após 2 horas, não tem mais nicotina no sangue;
  • Em 8 horas, o nível de oxigênio no sangue se normaliza;
  • Após 2 dias, o olfato já percebe melhor os cheiros, e o paladar já degusta a comida melhor;
  • Em 3 semanas, a respiração fica mais fácil, e a circulação melhora;
  • Após 5 a 10 anos, o risco de sofrer infarto será igual ao de quem nunca fumou.

Apoio para deixar o vício

A prática de atividades físicas de 3 a 4 vezes por semana é um potente controlador da vontade de fumar e auxilia na cessação do tabagismo, pois libera os mesmos neurotransmissores associados à sensação de bem-estar da nicotina. Além disso, a busca de aconselhamento profissional de psicólogo ou psiquiatra é muito importante para apoiar quem deseja deixar o cigarro. “Há casos em que é necessário usar medicamentos por algum tempo. Outros têm sucesso apenas com apoio psicológico”, informa Fernando Moura.

 

Brasil cumpre metas da OMS

A política antitabaco, que ajudou a reduzir em 35% o número de fumantes nas capitais brasileiras nos últimos 10 anos, colaborou para o cumprimento das metas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para diminuir a incidência de doenças e mortes relacionadas ao tabaco. O Brasil é um dos oito países que atingiram quatro ou mais dessas metas, de acordo com o relatório “Who report on the global tobacco epidemic, 2017″, divulgado pela entidade.

Segundo o relatório, nesse sentido são importantes as ações que o Ministério da Saúde realiza com relação ao tabagismo no país, como o monitoramento de políticas de uso e de prevenção do tabaco, a proteção dos fumantes passivos, o oferecimento de tratamento para quem deseja parar de fumar, a divulgação dos perigos de fumar, a proibição de publicidade, promoção e patrocínio do tabaco e o aumento de impostos sobre o produto.

Além do Brasil, os outros países que conseguiram o feito, foram o Irã, Irlanda, Madagascar, Malta, Panamá, Turquia e Reino Unido. No Brasil, a prevalência de fumantes passivos no trabalho também caiu de 2009 (12,1%) a 2016 (7,0%), assim como aqueles que fumam 20 cigarros ou mais por dia. 

Uma pesquisa patrocinada por Bill & Melinda Gates Foundation and Bloomberg Philanthropies, publicada em abril na revista científica The Lancet, revelou outra boa notícia para o Brasil: entre as 10 nações com maior número de fumantes, o país registrou a maior redução de tabagismo diário para homens (de 29% para 12%) e para mulheres (de 19% para 8%), no período de 1990 a 2015. O estudo analisou 195 países.

“Nós evoluímos nesse sentido, mas ainda é preciso ir além, proibindo o cigarro em filmes e fazendo a indústria do cigarro participar dos custos dos tratamentos das doenças causadas pelo fumo, por exemplo. Hoje, esse custo é da sociedade”, afirma Fernando Moura.

Jovens estão no alvo

Outro ponto de atenção, segundo o oncologista, é a falta de controle na venda de cigarros para jovens, que são o principal alvo. “A faixa dos 14 aos 24 anos é a que mais cresce em número de novos fumantes”, observa. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, 80% dos fumantes começam antes dos 18 anos e 20%, antes dos 15%.

Neste Dia Nacional de Combate ao Fumo, o INCA e o Ministério da Saúde divulgam um posicionamento público pela proibição de aditivos em cigarros, usados com a finalidade de facilitar a iniciação de jovens ao tabagismo.

A divulgação antecede julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de ação direta de inconstitucionalidade contra resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, de 2012, que restringe o uso de aditivos em derivados do tabaco. A indústria do tabaco obteve liminar favorável em 2013 e continua a usar livremente os aditivos em seus produtos. Essas substâncias dão aromas e sabores adocicados aos cigarros e diminuem a aversão à fumaça e ao gosto ruim do tabaco, facilitando a experimentação.