Os sintomas podem ser semelhantes, como dor abdominal, diarreia, manchas pelo corpo, dor de cabeça. Mas alergia alimentar e intolerância a determinados alimentos são problemas diferentes, que requerem diagnósticos e tratamentos orientados por especialistas – de preferência um médico alergista juntamente com um nutricionista.

Peixes e crustáceos, leite de vaca, ovo, amendoim, castanhas, soja e trigo são alguns dos alimentos que podem desencadear reações. “Não é tão fácil determinar se alguém tem intolerância alimentar ou alergia, porque os sintomas muitas vezes se sobrepõem”, afirma Dr. José Carlison Santos de Oliveira, membro do Departamento Científico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).

Segundo ele, na maioria dos casos, os sintomas de intolerância alimentar afetam principalmente o trato gastrointestinal. Já os sintomas de alergia são mais graves e podem prejudicar outros órgãos, como a pele e o sistema respiratório. A incidência dos dois tipos de problema também varia. “A intolerância alimentar atinge em torno de 20% da população mundial. Já o índice de alérgicos fica entre 3% e 4%”, informa Thais Siqueira, nutricionista clínica do GANEP (Grupo de Apoio de Nutrição Enteral e Parenteral).

Dois problemas diferentes

Alergia alimentar é uma reação do sistema imunológico, que responde de forma inadequada a alguns alimentos, geralmente às proteínas neles contidas. “Não são claros os motivos pelos quais o sistema imunológico de algumas pessoas tenta combater certos alimentos”, afirma o alergista. Em geral, bebês e crianças pequenas são mais sensíveis, porque têm um sistema imunológico imaturo. A hereditariedade é outro fator de risco nas alergias.

Já a intolerância alimentar é uma dificuldade do corpo para digerir certos alimentos, tem a ver com a produção de enzimas. “O nível de tolerância varia de um paciente para o outro”, explica a nutricionista.

 

Diagnóstico

Alguns testes e exames ajudam no diagnóstico. Para identificar intolerância à lactose, por exemplo, são feitos testes de sobrecarga. Já exames bioquímicos específicos podem indicar que o paciente tem doença celíaca, que é a intolerância ao glúten, presente sobretudo em alimentos com trigo, cevada ou centeio.

Já as alergias alimentares são diagnosticadas com base na pesquisa da imunoglobulina E (IgE), anticorpo responsável por grande número dos casos. “Tanto o teste cutâneo (Prick Test) como a dosagem sanguínea (pelo método de immunoCAP) podem auxiliar no diagnóstico”, informa dr. José Carlison.

Segundo ele, a melhor ferramenta de diagnóstico, porém, é a realização de uma dieta de exclusão, seguida pelo teste de provocação oral com o alimento suspeito de causar a alergia. “Esse teste deve ser realizado somente por médicos alergistas capacitados, em ambiente controlado e seguro, porque pode oferecer riscos graves ao paciente”, alerta.

Riscos e tratamentos

Enquanto as intolerâncias alimentares trazem sintomas ligados ao trato gastrointestinal – distensão e dor abdominal, flatulência, diarreia –, as alergias representam um risco maior. “Podem comprometer muito a qualidade de vida. Em alguns casos, levar a reações graves e potencialmente fatais”, destaca o médico. Uma delas é o chamado choque anafilático, que acomete vários órgãos simultaneamente, com queda da pressão arterial, arritmias cardíacas e colapso vascular.

Os tratamentos também diferem. No caso das alergias, é preciso eliminar totalmente o alimento envolvido. As pessoas com alergias graves, sujeitas à reação anafilática, devem utilizar braceletes ou cartões que as identifiquem para que, quando necessário, possam receber cuidados médicos adequados. Devem também portar medicamentos específicos, sob orientação médica, devendo recorrer imediatamente a um serviço de emergência quando houver ingestão acidental daquele alimento.

“Algumas alergias aparecem muito na primeira infância e tendem a desaparecer até a segunda década de vida”, informa a nutricionista Thais Siqueira. Segundo ela, em vários casos é possível fazer uma dessensibilização da criança, conduzida por um profissional especializado, com a introdução gradual da proteína até obter a sua aceitação. Segundo dados da ASBAI, aproximadamente 85% das crianças perdem a sensibilidade à maioria dos alimentos que lhes provocam alergia alimentar entre os 3 os 5 anos de idade.

 

Cuidado com a nutrição

Como as alergias estão ligadas às proteínas, o papel do nutricionista ganha relevância nesse acompanhamento para garantir uma boa alimentação com a substituição de alimentos. “Conseguimos substituir as proteínas animais, por exemplo, com feijões, grão de bico, ervilha e lentilha. Cada caso tem de ser estudado isoladamente”, explica Thaís.

Já a vida das pessoas que têm intolerâncias alimentares ficou mais fácil, segundo ela. Na rotina, é possível excluir o alimento em questão – hoje há vários produtos sem lactose ou sem glúten, por exemplo. Mas já existem cápsulas de enzimas digestivas que permitem o consumo daquele alimento. “Se uma pessoa com intolerância à lactose, por exemplo, for convidada para uma pizza, pode tomar cápsulas de lactase – a enzima que atua na digestão da lactose – e comer sem problema. Sempre com a orientação de um especialista”, reforça a nutricionista.

Thaís lembra a importância de, antes de consumir um alimento, conferir rótulos para checar a sua composição. E destaca que, em meio a casos reais de intolerância e alergia, ocorrem os modismos como a adoção de dietas sem glúten com o único objetivo de emagrecer.

“Os alimentos sem glúten são destinados aos celíacos, que têm alergia a essa proteína. Como tudo o que tem glúten é carboidrato, quem adota esse tipo de dieta acaba perdendo peso não porque tirou o glúten, mas porque diminuiu o consumo de carboidrato”, resume.