Especialista alerta para os riscos dos cigarros eletrônicos entre crianças e adolescentes

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Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 6 de janeiro, sob o título “Estratégia sinistra”, Drauzio Varella defende medidas preventivas enérgicas para controlar os cigarros eletrônicos, alertando que milhões de crianças brasileiras podem se tornar dependentes de nicotina.

Para justificar sua preocupação, o especialista informa que a Altria – maior fabricante de cigarros dos Estados Unidos, detentora das marcas Marlboro e Parliament, entre outras – acaba de investir US$ 12,8 bilhões na compra de 35% da Juul Labs, empresa que domina um terço do mercado de cigarros eletrônicos do país.

Drauzio lembra que “da mesma forma que os cigarros comuns, os eletrônicos são preparados para atrair crianças e adolescentes”. Para isso, muitos têm a forma de pen drive e aditivos químicos com sabores agradáveis ao paladar infantojuvenil, como chocolate e morango, transformando-se em sucesso de vendas entre adolescentes americanos.

“Inquérito conduzido em 2017 pelo National Institute on Drug Abuse entre 45 mil alunos do curso equivalente ao nosso ensino médio mostrou que 28% haviam fumado cigarros eletrônicos no ano anterior. Em 2018, esse número aumentou para 37%”, diz o artigo. O especialista observa que estudos demonstraram que usuários de cigarros eletrônicos, comparados aos não usuários, se tornam, com maior frequência, fumantes convencionais.

Evolução ameaçada

Drauzio considera que o uso dos dispositivos eletrônicos pode comprometer todo o esforço feito no Brasil para reduzir o número de fumantes, como a proibição de fumar em ambientes fechados, o aumento de impostos e campanhas educativas.

Os resultados dessas medidas aparecem na pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, que mostra que, em 2017, a prevalência do fumo entre os brasileiros era de 10,7%. “Hoje, fumamos menos do que nos Estados Unidos e nos países europeus”, reforça.

Segundo Drauzio, o argumento de que os cigarros eletrônicos podem ajudar fumantes a se livrar da dependência da nicotina é “altamente questionável”. Ele cita um estudo retrospectivo, publicado em junho de 2018 no The New England Journal of Medicine, no qual apenas 1% dos fumantes de eletrônicos permaneciam livres do cigarro comum depois de seis meses de acompanhamento.

Mais: em maio de 2018, um estudo publicado no Annals of Internal Medicine, revista do American College os Physicians, revelou que, seis meses depois de receber alta hospitalar, 10,1% dos que fumaram eletrônicos conseguiram parar de fumar, contra 26,6% dos que o fizeram sem usar esse recurso.

O cancerologista destaca, ainda, que mesmo a justificativa de que os eletrônicos evitariam os males do cigarro comum tem sido questionada. “Evidências preliminares sugerem que também estejam associados ao risco de infarto do miocárdio, de enfisema e outras doenças pulmonares.”

Editora Conteúdo/Abgail Cardoso